. EQUÍVOCO
. VESTES D'OURO NA AFRONTA ...
. A POESIA DE JOSÉ GIL - EM...
Cresci equívoca numa tessitura doiro
- invisível armadilha
de perecíveis deslumbramentos.
Como prender nas asas das mãos
os voos de todas as aves,
se das raízes dos plátanos
a ponta dos dedos
é espinho ferido
na última gota de amor.
Bernardete Costa
Parti em vela içada ao vento, o sol em tempo agreste
esmaecia no celeste azul, sol e lua no mesmo cais,
tarde demais a doer nostalgia.
À berma da vida te abracei por não saber mais amar-te.
Terminou na penumbra dos meus olhos
a cegueira maior de ti ao penar o teu amor.
O suor nas axilas, todas as pedras no peito,
e eu a perder-te pelas brumas, o teu rosto cego e duro
na cegueira do meu rosto.
Todas as tardes findaram nas mãos,
não mais névoas no Tejo ou asas no Mondego, não mais
perguntas por onde te perdias em desassossego.
Pelas vielas penas a vida numa pena de ver-te.
E as brumas nos meus olhos morrem de frio, não mais
a luz de estio na cegueira de ter-te.
Findou o vento que te trazia tal flor na lapela,
e tu pelas ruelas, rameira da escuridão colhendo seivas,
cinzas de amor e de pão…
tu pelo chão, tu perdida de mim,
ave nocturna a vender o amor que me pertencia na madrugada,
jasmim a florescer em açucena desfolhada.
Hoje, o outrora é passado que apago.
Não te posso amar, no coração restam farrapos de bandeiras
que o vento enfuna,
nesse imenso Tejo que te tragou,
nesse Mondego sereno,
desistente de ti como eu.
Bernardete Costa
sabe-se bela e derramada em esplendor de sol;
na raiz dos defeitos, rosa roseira não perturba lapela
em seus efeitos, pois não é mulher
com desgosto de amor .
mas rosa amarela é cega da luz que a tortura;
flor refém da cor, entretecida na chuva,
qual mulher em queixume de musa
com travo de delírio dos lábios bebida.
a crer-se Flora no matiz e mel das pétalas
por loucos pretendida, em silêncio, excessiva.
rosa a esmaecer na ardência que a retém, bela rosa
na cintilação dos meus versos,
lugar de exílio em poema delida,
como mulher em fio de astúcia
tomada de segredos.
Bernardete Costa
Prefiro peixe, mas quando me alimento
revejo-me nem peixe nem carne. Sou talvez vísceras
já que as prefiro ao suco da fibra. Para além
de ser os meus gostos de boca
a minha busca perpetua a insatisfação das papilas.
Assim nem carne nem peixe. Um eu visceral
arranca farrapos de pele e sangue
à efervescência do vinho,
a evitar as feridas do caminho.
Bernardete Costa
O meu coração vazio,
na janela a sorrir ao mundo que passa
e se deslaça no corrupio do trânsito em que vivo.
a neve na vidraça a pedir fragrâncias de chá
de cidreira, papoila, ou roseira,
súbito desejo de lua ou segredo de moira,
a competir com o olor da trepadeira da casa.
dizem, é louca, deixa a chuva na chávena de chá…
sim, loucura nas mãos ardentes
porque há tonturas nos sóis de raparigas
que dentro de mim compõem ramalhetes
em chás de margaridas,
…tão naturais como chás de malvas trigueiras,
de frutos e groselhas em água fervente, a reconciliar
a vida em mim do presente
e da que ficou para trás.
coração vazio a adiar o compromisso
do universo inteiro numa chávena de açucena
pousada no peitoril da janela; o meu coração vazio
a penetrar na chaleira
a adiar o gelo duma vida inteira.
noite, é na noite que o frio se instala e o chá
na mesinha de cabeceira…; seus vapores
são fragrâncias de múltiplos amores
para acrisolar a azia da própria vida.
Bernardete Costa
Minha mãe, tecedeira de rotinas, chama e persiste
no chamamento; eu sei que ela
não finge o suor que lhe cai das palavras,
como gotas de sol no frio da vidraça;
eu sei que dela o amor não passa e escorre
pelos beijos como pelas zangas.
Ó mãe, vou já, digo em jeito irreverente.
No meu quarto, o relógio gira ao contrário e o presente
espreita pela janela avesso a calendários
jorrando como nascente na agitação da foz.
Anda comer!,da voz de minha mãe, pedaços de dor
nos excessos de cansaço sobem pelas escadas.
Eu, como um camaleão, desço pela garganta da anarquia,
desafiando o rubor das suas palavras:
estou-me nas tintas para os teus horários, grito num desafio,
o meu sol retém-se nas suas voltas
e onde era mar agora é rio…
Minha mãe, colhendo
lágrimas no avental, tranca a porta da casa e, tremente,
diz que a terra gira à volta do sol,
e os relógios são ventos solares,
possuem a exigência do compromisso.
Só mais tarde
eu saberei disso, quando me doer a inexistência
dos cuidados e dos beijos de minha mãe
Bernardete Costa
Rendas, bilros, filigranas, luzes de diamante
na desmesura do excesso…
Ouro, ouro, filamentos áureos na coroação da vaidade!
Olhos cegos de luz inverdadeira a recusar ver,
olhos cegos virados aos céus, júbilo de deus, a renegar
o punho, o desacerto da realidade.
Apenas voz na caridade avulsa, traiçoeira no fingimento
que oscila entre a oração e a negação.
Ó vestes de pele apenas pele, sofrimento e sede,
pele de luz apagada, não mais criança
na pequenez dos membros, na nudez do dorso…
na fome esboçada em arabesco de osso.
Como aceitar esta crueldade, a beleza a mofar da pobreza
nos votos que as vestes desdizem…
Patético, adorar o sol
e aceitar o fervor na lisura das palavras que fingem.
Bernardete Costa
*VEREDAS*
procurei o azul e perdi-me
desbaratei a juventude e o corpo
em ondas de areia fugidia
num recanto longínquo
passou o amor fechado como esse
azul há tanto procurado quis
apanhá-lo nas palavras que pudessem
achar-me e agora que é outono
cerram-se-me os olhos
e há um esplendor iluminando
esse celeste em que teci lacrimejado
este breve sopro de primavera.
JFernandes, 10.XI.2011
Corpo 149
há um aroma que chega do sul
a palavra chorando de saudade
há uma voz que vem no aroma
com as suas velas, é o rio, barco
erguido a janela de flores da minha
vida, há um aroma que vem nos corvos
agulha picando todo o corpo sobre
a mesa descansada, há outras janelas
no ar do enlaço do mar uma guitarra
há um quadro minucioso e negro na
saudade junto ás persianas brancas
é polido o céu deste outono de água
plenamente os seios uma palavra qualquer
um aroma para respirar moribundo
peregrino no caminho das fontes
José Gil