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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
EQUÍVOCO

 

Cresci equívoca numa tessitura doiro

 - invisível armadilha

de perecíveis deslumbramentos.

Como prender nas asas das mãos

os voos de todas as aves,

se das raízes dos plátanos

a ponta dos dedos

é espinho ferido

na última gota de amor.

 

 

Bernardete Costa



publicado por bernardetecosta às 15:44
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
NA CEGUEIRA DE TER-TE

 

Parti em vela içada ao vento, o sol em tempo agreste

esmaecia no celeste azul, sol e lua no mesmo cais,

tarde demais a doer nostalgia.

 

À berma da vida te abracei por não saber mais amar-te.

Terminou na penumbra dos meus olhos

a cegueira maior de ti ao penar o teu amor.

                                                                                             

O suor nas axilas, todas as pedras no peito,

e eu a perder-te pelas brumas, o teu rosto cego e duro

na cegueira do meu rosto.

 

Todas as tardes findaram nas mãos,

não mais névoas no Tejo ou asas no Mondego, não mais

perguntas por onde te perdias em desassossego.

 

Pelas vielas penas a vida numa pena de ver-te.

E as brumas nos meus olhos morrem de frio, não mais

a luz de estio na cegueira de ter-te.

 

Findou o vento que te trazia tal flor na lapela,

e tu pelas ruelas, rameira da escuridão colhendo seivas,

                         cinzas de amor e de pão…

 

tu pelo chão, tu perdida de mim,

ave nocturna a vender o amor que me pertencia na madrugada,

jasmim a florescer em açucena desfolhada.

 

Hoje, o outrora é passado que apago.

Não te posso amar, no coração restam farrapos de bandeiras

que o vento enfuna,

 

nesse imenso Tejo que te tragou,

nesse Mondego sereno,

                        desistente de ti como eu.

 

 

 

Bernardete Costa



publicado por bernardetecosta às 18:16
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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
ROSA AMARELA

sabe-se bela e derramada em esplendor de sol;

na raiz dos defeitos, rosa roseira não perturba lapela

em seus efeitos,  pois não é mulher

com desgosto de amor .       

 

mas rosa amarela é cega da luz que a tortura;

flor refém da cor, entretecida na chuva,

qual mulher em queixume de musa

com travo de delírio dos lábios bebida.

 

a crer-se Flora no matiz e mel das pétalas

por loucos  pretendida, em silêncio, excessiva.

 

rosa a esmaecer na ardência que a retém, bela rosa

na cintilação dos meus versos,

 

lugar de exílio em poema delida,

como mulher em fio de astúcia

                                   tomada de segredos.

Bernardete Costa

 



publicado por bernardetecosta às 18:03
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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
PREFIRO VINHO

 

Prefiro peixe, mas quando me alimento

revejo-me nem peixe nem carne. Sou talvez vísceras

já que as prefiro ao suco da fibra. Para além

de ser os meus gostos de boca

a minha busca perpetua a insatisfação das papilas.

Assim nem carne nem peixe. Um eu visceral

arranca farrapos de pele e sangue

à efervescência do vinho,

                   

                           a evitar as feridas do caminho.

 

Bernardete Costa

 

 



publicado por bernardetecosta às 14:34
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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011
ODE AO CHÁ

 

O meu coração vazio,

na janela a sorrir ao mundo que passa

e se deslaça no corrupio do trânsito em que vivo.

 

a neve na vidraça a pedir fragrâncias de chá

de  cidreira, papoila, ou roseira,

súbito desejo de  lua ou segredo de moira,

a competir  com o olor da trepadeira da casa.

 

dizem, é louca, deixa a chuva na chávena de chá…

sim, loucura nas mãos ardentes

porque há tonturas nos sóis de raparigas

que dentro de mim compõem ramalhetes

em chás de margaridas,

 

…tão naturais como chás de malvas trigueiras,

de frutos e groselhas em água fervente, a reconciliar

a vida em mim do presente

e da que ficou para trás.

 

coração vazio a adiar o compromisso

do universo inteiro numa chávena de açucena

pousada no peitoril da janela; o meu coração vazio

a penetrar na chaleira

                                    a adiar o gelo duma vida inteira.

 

noite, é na noite que o frio se instala e o chá

na mesinha de cabeceira…; seus vapores

são fragrâncias de múltiplos amores

 

  para acrisolar a azia da própria vida.

 

Bernardete Costa



publicado por bernardetecosta às 14:57
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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011
A MINHA BUGANVÍLIA

 



publicado por bernardetecosta às 22:38
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011
MÃE TECEDEIRA

Minha mãe, tecedeira de rotinas, chama e persiste

no chamamento; eu sei que ela

não finge o suor que lhe cai das palavras,

como gotas de sol no frio da vidraça;

eu sei que dela o amor não passa e escorre

pelos beijos como pelas zangas.

 

Ó mãe, vou já, digo em jeito irreverente.

No meu quarto, o relógio gira ao contrário e o presente

espreita pela janela avesso a calendários

jorrando como nascente na agitação da foz.

 

Anda comer!,da voz de minha mãe, pedaços de dor

nos excessos de cansaço sobem pelas escadas.

Eu, como um camaleão, desço pela garganta da anarquia,

desafiando o rubor das suas palavras:

 

estou-me nas tintas para os teus horários, grito num desafio,

o meu sol retém-se nas suas voltas

e onde era mar agora é rio…

 

Minha mãe, colhendo

lágrimas no avental, tranca a porta da casa e, tremente,

diz que a terra gira à volta do sol,

e  os relógios são ventos solares,

possuem a exigência do compromisso.

 

Só mais tarde

eu saberei disso, quando me doer a inexistência

dos cuidados e dos beijos de minha mãe

                                              na mudez da sua ausência.

 

 

Bernardete Costa



publicado por bernardetecosta às 15:57
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011
VESTES D'OURO NA AFRONTA DA NUDEZ

Rendas, bilros, filigranas, luzes de diamante

 na desmesura do excesso…

Ouro, ouro, filamentos áureos na coroação da vaidade!

 

Olhos cegos de luz inverdadeira a recusar ver,

olhos cegos virados aos céus, júbilo de deus, a renegar

o punho, o desacerto da  realidade.

 

Apenas voz na caridade avulsa, traiçoeira no fingimento

que oscila entre a oração e a negação.

 

Ó vestes de pele apenas pele, sofrimento e sede,

pele de luz apagada, não mais criança

na pequenez dos membros, na nudez do dorso…

na fome esboçada em arabesco de osso.

 

Como aceitar esta crueldade, a beleza a mofar da pobreza

nos votos que as vestes desdizem…

 

Patético, adorar o sol

e aceitar o fervor na lisura das palavras que fingem.

 

Bernardete Costa

 



publicado por bernardetecosta às 13:53
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
POESIA DE J. FERNANDES

 

 

*VEREDAS*

procurei o azul e perdi-me
desbaratei a juventude e o corpo
em ondas de areia fugidia
num recanto longínquo
passou o amor fechado como esse
azul há tanto procurado quis
apanhá-lo nas palavras que pudessem
achar-me e agora que é outono
cerram-se-me os olhos
e há um esplendor iluminando
esse celeste em que teci lacrimejado
este breve sopro de primavera.

JFernandes, 10.XI.2011

 



publicado por bernardetecosta às 10:49
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011
A POESIA DE JOSÉ GIL - EM DESTAQUE

Corpo 149

há um aroma que chega do sul
a palavra chorando de saudade
há uma voz que vem no aroma
com as suas velas, é o rio, barco
erguido a janela de flores da minha
vida, há um aroma que vem nos corvos
agulha picando todo o corpo sobre
a mesa descansada, há outras janelas
no ar do enlaço do mar uma guitarra
há um quadro minucioso e negro na
saudade junto ás persianas brancas
é polido o céu deste outono de água
plenamente os seios uma palavra qualquer
um aroma para respirar moribundo
peregrino no caminho das fontes

 

José Gil



publicado por bernardetecosta às 18:24
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